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ANÁLISE: a música "Eduardo e Mônica" do Legião Urbana sob a ótica da metapsicologia de Melanie Klein



Melanie Klein – Wikipédia, a enciclopédia livre
Melanie Klein, 1952


  1. “Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar

            Ficou deitado e viu que horas eram”

Dentro da metapsicologia de Melanie Klein temos a posição depressiva, que ocorre por volta dos quatro meses e sua superação se dá ao longo do primeiro ano de vida. No entanto, ainda pode ser encontrada durante a infância e reativada no adulto, particularmente nas situações de luto e estados depressivos.

A partir do primeiro excerto é possível perceber  uma condição de ansiedade depressiva, não como patologia, mas como condição para pensamento. Diferentemente da mania, em que há uma busca exacerbada por ‘fazer coisas’, na lógica depressiva há um desaceleramento, seguido de um relaxamento e isso permite um movimento de introspecção para começar a lidar com questões internas. Eduardo não acordou e se preocupou prontamente em produzir, mas permaneceu deitado como alguém que, internamente, faz elaborações.


  1. “Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer

            E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer”

O segundo excerto apresenta uma característica básica do Sistema Kleiniano: a ênfase no caráter dinâmico entre dificuldades opostas, nesse caso entre projeção e introjeção. Ao realizar uma conversa para tentar se conhecer, ocorre a formação de uma realidade psíquica por meio da troca entre o Eu (ego) e o Outro (objeto). Para Klein, o modelo relacional é sempre feito entre ego e objeto (Eduardo e Mônica) que compõem o caráter dinâmico onde os desejos do Eu são projetados no Outro e a resposta do Outro é introjetada no Eu.

           Nessa linha de raciocínio, o homem não busca prazer, mas sim objetos onde a pulsão atua, diferentemente da teoria Freudiana. Então, como o objetivo da análise é o relacionamento humano e não a descarga do impulso, é possível perceber a troca de projeção e introjeção no ato da conversa que permite a dois indivíduos se conhecerem.


  1. “Festa estranha, com gente esquisita

          "Eu não 'to’ legal, não aguento mais birita"

No terceiro excerto da música, o estranhamento frente às pessoas pode ser interpretado como um conflito entre a realidade objetiva e a realidade psíquica sendo vivenciada naquele momento, com a presença no local constituindo uma relação ambivalente para a protagonista. Segundo Melanie Klein, a tomada de consciência das representações internas e dos imagos permite ao sujeito compreender aquilo que é ou não da ordem dos afetos, podendo transformar os vínculos que estabelece com estes. 

A tomada de consciência é relatada no verso seguinte, ao decidir abster-se da “birita” pois reconhece que “não está legal”, ou seja, a pulsão de morte que estava ligada ao objeto “bebida”, talvez com o intuito de ludibriar e fugir (ou intensificar) alguma situação, o que, por si, já remonta à definição kleiniana de que a finalidade de uma pulsão é diversa, é atingida pela defesa maníaca, libertando o Ego da culpa e do temor do aniquilamento, fazendo-o desinvestir do objeto desejado (a bebida). Assim, o investimento objetal na festa é interrompido pela defesa maníaca ao tomar consciência dos modos defensivos e das ansiedades que permeiam as relações que estão ali sendo estabelecidas, buscando cessar os conflitos existentes na relação ambivalente em relação à bebida, que ora é utilizada como um mecanismo de interação social e ora volta-se contra o objeto e provoca conflitos internos.   


  1. “Eduardo e Mônica trocaram telefone

 Depois telefonaram e decidiram se encontrar

 O Eduardo sugeriu uma lanchonete

 Mas a Mônica queria ver o filme do Godard”

Melanie Klein, assim como anteriormente citado no segundo excerto, desenvolveu a teoria das relações objetais. Nesse sentido, o encontro de Eduardo e Mônica demonstra o interesse que ambos têm nos objetos (pessoas) que circundam, em um interesse maior entre eles, resolvem trocar telefone e conversam, com o objetivo de se conhecer melhor. Ambos estão buscando se ligar a um objeto. A teoria das relações objetais considera que a busca por contato e relacionamento é a motivação fundamental do comportamento humano e não o prazer sexual. O que fica claro, quando Eduardo e Mônica, sugerem ir a lanchonete ou ver um filme, ambas atividades proporcionam a aproximação por identificação, não por impulso sexual.


  1. “Se encontraram então no parque da cidade

 A Mônica de moto e o Eduardo de camelo

 O Eduardo achou estranho, e melhor não comentar

 Mas a menina tinha tinta no cabelo

 Eduardo e Mônica eram nada parecidos

 Ela era de Leão e ele tinha dezesseis”

No quinto excerto, Eduardo demonstra como se sentiu ao perceber o quanto Mônica (o objeto desejado) é diferente dele e, embora essa percepção tenha causado um certo estranhamento, ele optou por não comentar. Nesse trecho é possível identificar uma das ideias ligadas à teoria das relações objetais descrita por Melanie Klein, como a identificação do principal motivador do comportamento que está presente na música e nas relações de forma geral: para ela, o principal motivador do comportamento é o relacionamento humano, havendo, portanto, a renúncia da descarga do impulso. O reconhecimento da alteridade, por sua vez, é proveniente das experiências de lutos vivenciadas pela pessoa. Para Klein, viver consiste em um processo de perdas constantes, sendo as experiências de luto responsáveis pela integração e indispensáveis na travessia existencial. O desmame é a primeira experiência de luto pela qual a criança passa e, neste momento, o bebê é invadido pelo intenso sentimento de ter perdido sua maior fonte de alimento e prazer e se vê incapaz de elaborar essa perda. 

Ademais, o atravessamento do complexo de édipo também implica em realizar uma série de lutos, pois há a renúncia da posse exclusiva dos objetos de amor e isso faz com que o indivíduo consiga discriminar a alteridade  do  objeto. Partindo desse pressuposto, ao ler o verso “o Eduardo achou estranho e melhor não comentar”, pode-se concluir que Eduardo foi capaz de reconhecer as diferenças entre Mônica e ele e, em contrapartida, reconhecer a possibilidade dela ser o seu objeto de amor que ficará mais evidente no decorrer da música.

 

  1. “E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente

 Uma vontade de se ver

 E os dois se encontravam todo dia

 E a vontade crescia, como tinha de ser”

Klein alicerça muito da sua teoria nas ideias de Freud sobre o segundo dualismo pulsional e os aspectos dinâmicos do mundo mental. O segundo dualismo pulsional se relaciona com a sexta estrofe pois remete às pulsões de vida, ou seja, diz respeito ao investimento libidinal na sexualidade dirigida a objetos. Na sexta estrofe ocorre um investimento libidinal da relação, por parte dos dois, sendo relacionado a pulsão de vida, que envolve o amor e o anseio um pelo outro. E essa relação entre pessoas tão distintas constitui-se em um objeto ativo, ocorre uma relação transferencial, os dois são sujeitos e objetos.

Klein fala sobre a onipotência do desejo inconsciente que no adulto se torna menos evidente pois há ampliação das capacidades do ego para sublimação e reparação. O psiquismo infantil tende a construir relações parciais com os objetos, enquanto a elaboração da posição depressiva implica na construção de relações totais com estes, ou seja, admitir que ele tem lados bons ou ruins. O que pode ser visto na sexta estrofe se relaciona com a elaboração da posição depressiva pois ocorre uma relação total com o objeto, ou seja, apesar de Eduardo e Mônica terem gostos extremamente opostos, terem objetos de investimento diferentes, conseguiram se relacionar considerando os aspectos “bons” ou “ruins” um do outros, que eles concordam ou não. Na elaboração da posição depressiva as cisões diminuem e os objetos parciais se aproximam e se integram, ocorre uma maior diferenciação entre o eu e o outro. O que é considerado na sexta estrofe uma vez que eles consideram os gostos diferentes de ambos, continuam tendo suas atividades pessoais, cada um mantém seu gosto porém ainda sim continuam se relacionando. A firme introjeção do objeto bom implica na capacidade de amar e reparar o objeto amado que foi alvo de agressividade, nesse caso, pode-se imaginar que poderia ter acontecido isso com ambos no momento em que perceberam como terem gostos tão distintos e opostos e mesmo assim decidiram por se relacionar e investir um no outro.


  1. “Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer

 E decidiu trabalhar [...]

 E os dois comemoraram juntos

 E também brigaram juntos, muitas vezes depois”

Em “Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar [...]”, a capacidade de reconstrução interior e a retomada do interesse pelo mundo após o processo de luto, é exemplificado pelo trabalho, criando um paralelo com a conclusão da posição depressiva abordada por Melanie Klein. Logo, a ação de “reinstalação dos objetos internos” para que ocorra a volta de investimento do sujeito para investir no mundo, pode ser vista  quando Eduardo repensa a sua relação com a bebida. Além disso, a ressignificação para com o mundo externo também é vista quando Eduardo muda sua aparência física, estruturando uma nova forma de apresentação e relação com o exterior.

Uma vez que a posição depressiva é um fenômeno que integra o sujeito ao campo da ambivalência, a passagem por esse estado faz com que que o sentimento de amor prevaleça ao de ódio quando os objetos bons são introjetados ao indivíduo. Logo, Eduardo consegue introjetar os objetos bons e, por isso, briga, mas também é capaz de amar e ter momentos felizes ao lado de Mônica, evidenciando a capacidade de lidar com a realidade e suas ambivalências afetivas.

O trecho “e também brigaram juntos, muitas vezes depois” evidencia o pensamento kleiniano de que as descargas pulsionais não são destinadas aos objetos passivos, evidenciando que possivelmente no ato de brigar com Mônica, Eduardo também estava motivado pelas reações da parceira diante das suas descargas pulsionais.

 

  1. “Construíram uma casa há uns dois anos atrás

 Mais ou menos quando os gêmeos vieram

 Batalharam grana, seguraram legal

 A barra mais pesada que tiveram”


Por fim, no último excerto, ao tratar de possíveis dificuldades enfrentadas pelo casal, é possível perceber a relação com a continência afetiva revelando que durante a vida, tanto Eduardo quanto Mônica obtiveram relações de objeto total. Nesse sentido, ambos são capazes de reconhecer que o objeto é integrado podendo gerar ao mesmo tempo amor e ódio e a partir disto, são capazes de conter a experiência emocional (“A barra mais pesada que tiveram”) para poder pensar sobre e conseguir resolver ou prosseguir mesmo com o conflito.

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